domingo, 2 de novembro de 2008

antiinflamatório

.
pequena sou
entre as letras
de bula
dobrada
contorço o pulso
.........................&
...............................desencaixo
.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Senhorinha

.
Não deixe-a cair.


ossos frágeis e trêmulos
entortam a rosa murcha
de novena e devoção

veias trançadas ao caule
seiva de promessas
avessa à calma

Não deixe-a cair.

espinhos beijam a pele
franzida e esculpem
ansiedade em folheado

manto de ouro encobre
o desespero pálido
de milagres perdidos

Não deixe-a cair.

fiéis queimam ao meio-dia
procurando suas causas
nas esquinas de um santo

o Cosme está mais velho

da janela do 570
paro, olho a romaria
e espero

Não deixe-me cair,
Senhorinha.
.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

coqueluche

.
ao cansar
o chumbo
nos olhos,
encolho o queixo
e me esqueço
dentro do seu
elixir
.

domingo, 19 de outubro de 2008

caducidade precoce

.
de: Manoel
para: Benjamin

com a míngua da áurea,
eu obrei.




terça-feira, 14 de outubro de 2008

mola

.
ainda guardo nos bolsos
o gosto do banho lilás
depois da coceira

nas mangas o veludo
tímido do teatro
o jazz nos sapatos

a voz dos pés sobre
a estrada cantando
galochas e balas

depois do almoço,
cafuné e dormideira

quero borboletas
na meia-calça
elástico no umbigo
suspensório sorrindo

nas mãos,
mímica
e tinta

acordo o cheiro
do Verona azul
para no porta-luvas
esconder o tempo

e contar as estrelas
do teto solar
.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Dia do adulto

um bilhete amarelo com letra de adulto dizia:
salve o dia das crianças!
embrulho com fita
e dentro memória
de quatro giga:
para guardar as formalidades do mestrado.

outro embrulho, sem fita

espero que sobre algum espaço para salvar o dia.

domingo, 12 de outubro de 2008

diminutivo inflável

eis que não é mais
senhora deste corpo
estende a estadia
e destrói
assombra.

massa que gruda
nos dentes, crava
fuligem escrota
no bronze da carne,
cárie crônica.

erva daninha
enverga teu
diminutivo inflável
vela tua úlcera
no avesso da bolha
e leva teu visco
daqui!

mergulha no pus
que te entope
entende que
agora é amorfa
se afoga no mofo
e aspira teus
ácaros de nós.

golfa e engasga
no sofisma
dos efes
não és elfa,
flagelo fútil
teu cinismo
enfada-me,
és nada.

tire teus átomos
mortos do trilho
não há mais
cartas para ti.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

no elevador

estou presa. não há nada pra ler a não ser uma plaquinha com letras minúsculas gritando: segundo a lei 21.039 apenas o chapeleiro tem a chave mestra. estou prestes a virar poço. suo fobia e bóio fundo. olho entre as frestas do metal e enferrujo, só me resta o espelho imundo. nas imperfeições da poeira, ouço um coelho a repetir: a metafísica é oca, a metafísica é oca. interfone mudo, botões surdos. espero, conto até vinte. no canto, uma sacola de drogaria perdida e dentro uma pílula, do dia seguinte. rosa choque, não hesito, junto saliva, engulo. é como dançar fábulas amanhã. adormeço, sonho com trompas, copas e avós sofridas. acordo Alice no sétimo desandar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

engarrafada

listras onduladas
a girar sobre o asfalto
o funil esfola
ao meio-dia,
escorre a pressa.
apitos tossem
estupidez aguda,
passos vermelhos
emulam sirene
rumo ao palácio,
tudo parado.
túnel,
marcha.
elmos de agulha
a gritar entre altos,
enquanto as buzinas
dançam o caos.

domingo, 28 de setembro de 2008

Índice pluviométrico do vão

mesmo secando o domingo,
hoje eu não quero chover.
verto apenas migalhas de
borracha e encharco.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ronda


A Carleto Gaspar 1806


O saque é macio no tempo, em camadas ameaço poemas, armada maquio palavras, reinvento. Alicio tipos a entortar grafias nas trincheiras, sangro cheiro de folha em branco, dilacero orelhas. Injeto antíteses em heroínas de batalhas perdidas. Caminho como nômade, escorregando em ameias, pisando em godos. Caro bárbaro, profeta do caos, o baque é mesmo macio no tempo, lentos são os parágrafos. Coragem!

domingo, 21 de setembro de 2008

Páprica


"Primeiro estranha-se,
depois entranha-se."
Fernando Pessoa




quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Dois

:
em cada canto
de lugar nenhum
assopro rabiscos
a habitar
quadriculado
nos sapatos
o tempo rouco
de ser dois
ou um par.