domingo, 28 de setembro de 2008

Índice pluviométrico do vão

mesmo secando o domingo,
hoje eu não quero chover.
verto apenas migalhas de
borracha e encharco.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ronda


A Carleto Gaspar 1806


O saque é macio no tempo, em camadas ameaço poemas, armada maquio palavras, reinvento. Alicio tipos a entortar grafias nas trincheiras, sangro cheiro de folha em branco, dilacero orelhas. Injeto antíteses em heroínas de batalhas perdidas. Caminho como nômade, escorregando em ameias, pisando em godos. Caro bárbaro, profeta do caos, o baque é mesmo macio no tempo, lentos são os parágrafos. Coragem!

domingo, 21 de setembro de 2008

Páprica


"Primeiro estranha-se,
depois entranha-se."
Fernando Pessoa




quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Dois

:
em cada canto
de lugar nenhum
assopro rabiscos
a habitar
quadriculado
nos sapatos
o tempo rouco
de ser dois
ou um par.

domingo, 14 de setembro de 2008

tem alguém aí?



tem,

alguém caracol que oferece
a concha como degrau e
o pulmão nas horas de espiral.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Duas

Se há outra em uma
dissolvida em vertigem
se a pressa
vestida de rastro
se esconde
na virgem
bordada
em gemidos
esguios
se há calma
na máscara
casta
seda do leque
se aquece
colada na cela
de ser uma
em outra
há.

domingo, 24 de agosto de 2008



my blueberry nights


sonhei que ruibarbo era um mal do século. fruto da modernidade viscosa, vinha embalado em um papel-filme amarelo, amargo. fecundava as papilas com seu antígeno cínico, deslizando pelas veias num voluptuoso deleite. refluxo auto-imune do tempo, fluido, arrastava a agonia dos homens, cuspia o enfeite. despidos de vaidade, cobertos de barbitúricos, só lhes restava o delírio lúdico que diluía a doença em encanto, transformando ruibarbo num doce fruto da imaginação. o olhar convalescente contraia, então, todas as cores e formas mais sublimes. contemplava o tempo de outrora, redescoberto sem limites. cílios inebriados, verniz nos sapatos, geléia de amora, irmã encontrada. a colher sobre o pote só refletia uma imagem, que ofuscava até a cura vã.

sábado, 26 de julho de 2008

encerado

Amálgama de menta
Mentiras suturadas
Amigos na moldura
Casulo engessado

Dentes de cera
Lágrimas de esmalte
Cigarras e abelhas
Levam o passado

Castanhas cerdas
De um pincel torto
Devolvem o rosto
Ao menino atormentado.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

bainha de mielina

Ondulada textura do arrepio que transborda a fronteira em suspiros largos. aperta o dorso, inibe o passo. frio é o sopro que desmancha o laço. fita os lábios, chama a medula pra dançar, invade a trama e repousa em seu lugar. rosa é o veneno da bailarina, desperta a formiga que adormece a pele. abriga o fluido, sementes de romã expele. voa e volta a provocar.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

da gaveta

hiato

Doce ruído que me envolve de novo na vida. desarrumo o encontro de vazios, que rondava a casa, risco o papel de parede, rasgo o encarte. troco o plano pela arte, o plástico pelo pano. encontro retalhos da infância. fantoches de veludo, vestidos de fábulas, centopéias dançantes, desenhos de mágoas. mágica gaveta com cheiro de guache. guardo o gosto das coisas misturadas. embaralho consoantes, ensaio a volta tecendo hortelã. ainda com mofo nas mãos, desperto deste tênue coma de estio, dissonante hiato
vazio.