domingo, 24 de agosto de 2008



my blueberry nights


sonhei que ruibarbo era um mal do século. fruto da modernidade viscosa, vinha embalado em um papel-filme amarelo, amargo. fecundava as papilas com seu antígeno cínico, deslizando pelas veias num voluptuoso deleite. refluxo auto-imune do tempo, fluido, arrastava a agonia dos homens, cuspia o enfeite. despidos de vaidade, cobertos de barbitúricos, só lhes restava o delírio lúdico que diluía a doença em encanto, transformando ruibarbo num doce fruto da imaginação. o olhar convalescente contraia, então, todas as cores e formas mais sublimes. contemplava o tempo de outrora, redescoberto sem limites. cílios inebriados, verniz nos sapatos, geléia de amora, irmã encontrada. a colher sobre o pote só refletia uma imagem, que ofuscava até a cura vã.

sábado, 26 de julho de 2008

encerado

Amálgama de menta
Mentiras suturadas
Amigos na moldura
Casulo engessado

Dentes de cera
Lágrimas de esmalte
Cigarras e abelhas
Levam o passado

Castanhas cerdas
De um pincel torto
Devolvem o rosto
Ao menino atormentado.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

bainha de mielina

Ondulada textura do arrepio que transborda a fronteira em suspiros largos. aperta o dorso, inibe o passo. frio é o sopro que desmancha o laço. fita os lábios, chama a medula pra dançar, invade a trama e repousa em seu lugar. rosa é o veneno da bailarina, desperta a formiga que adormece a pele. abriga o fluido, sementes de romã expele. voa e volta a provocar.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

da gaveta

hiato

Doce ruído que me envolve de novo na vida. desarrumo o encontro de vazios, que rondava a casa, risco o papel de parede, rasgo o encarte. troco o plano pela arte, o plástico pelo pano. encontro retalhos da infância. fantoches de veludo, vestidos de fábulas, centopéias dançantes, desenhos de mágoas. mágica gaveta com cheiro de guache. guardo o gosto das coisas misturadas. embaralho consoantes, ensaio a volta tecendo hortelã. ainda com mofo nas mãos, desperto deste tênue coma de estio, dissonante hiato
vazio.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

metafísica líquida


entropia

Estranho transtorno deste corpo
Roxo, desconhecidamente, roxo
Arde com o frio do esôfago
Espera a catástrofe

Desordem térmica do medo
Das cores impossíveis
Atravessa o vazio do espelho
Arranha a catarse

Inacabado curta do fim
Branco, impossivelmente, branco
Treme e sai de foco
Estende a estrofe

Cianótica palpitação do tempo
Cala a clareza
Ansiedade preta

sexta-feira, 20 de junho de 2008

segunda-feira, 16 de junho de 2008

quando fui outra


O eco da sonoridade denuncia a gentileza estranha das palavras cantadas no cânone retrógrado. marcando o compasso dos comentários, desvendo elogios ocultos nas formas desnudas de seus heterônimos. ainda que anônima, a excitação devasta minha ignorância erudita, ressuscita o criador da dialética, grito: onde está a ode neste canto? o cumprimento do marechal, a reverência deslumbrada, tudo me (des)constrói, destrói. desprendo-me, encarno nestes versos surdos. quando fui Helena ou Matilde, todas em uma,
outra.